Na página inicial do https://3seminario.plurau.com.br/ há citações de Ana Clara Torres Ribeiro e Milton Santos que incitam a acreditar em mundos outros, da pós-globalização. Não se trata apenas de afirmações categóricas por eles pronunciadas, de que o jogo no tabuleiro político continua em aberto; o que nos dizem são possibilidades teóricas que passam, no campo da ética, a endossarmos e acreditarmos que são impulsos que levam a outros cenários. Caso contrário será melhor reconhecer de vez que tais argumentos devem ser firmemente rechaçados.
Naquelas proposições, é certo, há uma dose elevada de idealismo, uma aposta segura de que existem saídas, projetos e respostas científicas dotadas da virtude de romper este estágio caótico em que nos encontramos. O paradoxo em estado puro chegou, e exige esse posicionamento. E, se ainda não chegou, que o esforço coletivo conduza a transformações políticas que efetivem propostas libertárias para esses dias tumultuados, como queria Silvio Tendler.
Essa foi a orientação do 4º Seminário PURAURBANOLOGIA e que deverá prosseguir após seu encerramento, que essas ações, políticas que são, não nascem para reafirmar saberes estabelecidos, mas para abrir terreno a um campo ainda em constituição. Ao convocar uma reflexão sobre as bases epistemológicas da urbanologia, assume-se o risco de habitar um território instável — um campo atravessado por diferentes tradições disciplinares, saberes situados e práticas em confronto.
Esse gesto exige disposição para abrir-se a territórios nada consolidados — um exercício que não apenas demanda rigor analítico, mas também vigor para percorrer caminhos conceituais em construção. A proposta não se dirige à autoridade disciplinar ou à especialização consolidada, mas sim ao comprometimento com o pensamento em movimento, disposto a transitar entre campos, desconfiar de certezas e aceitar o risco do inacabado.
Motivados por um projeto científico acionado pela esperança de que o humanismo concreto sobrevirá em potência, a proposta deste Fórum é refletir sobre a articulação entre três eixos temáticos que, por sua vez, desaguaram nos onze subtemas circundantes às mesas redondas deste evento.
O Fórum registra a base conceitual do 4º Seminário PURAURBANOLOGIA e continuará atuante para o compartilhamento de reflexões e debates de agora, e para depois, de modo a constituir a historiografia presentificada de um campo de conhecimento miltoniano.
A cidade é aqui proposta como campo privilegiado para a crítica radical do presente e, simultaneamente, como lugar de emergência do possível. Tal monta parte do entendimento de que a cidade não é apenas efeito da urbanização contemporânea; é também espaço onde se manifestam, de forma concentrada e visível, as contradições, os conflitos e as potências sociais que desafiam os modelos hegemônicos de organização do espaço e da vida. Por assim ser, não se trata de objeto passivo de estudo, mas de uma instância crítica que interroga a técnica, a política e o projeto.
A proposta convida à reinvenção das formas de compreender e intervir no urbano, recusando as abordagens que o reduzem a um problema de gestão, eficiência ou inovação. Em contraponto, busca-se recolocar em cena a cidade como campo de disputa simbólica e material, onde diferentes concepções de território, valor e uso se enfrentam. Ao abordar temas como a tensão entre técnica e política, o esvaziamento do planejamento pela racionalidade instrumental e a centralidade do trabalho vivo na produção dos espaços, destaca-se a urgência de reconstruir o projeto urbano a partir da práxis e da imaginação. O que está em jogo vai além de uma simplória crítica ao que existe: busca-se a abertura de horizontes capazes de reconfigurar os fundamentos da vida urbana — por meio de novos sentidos de habitar, de apropriar, de criar e de lutar coletivamente por territórios justos e vivos.
O objetivo aqui é revelar e problematizar os dispositivos que, na contemporaneidade, operam a contenção da crítica, o esvaziamento da política e a reprodução da desigualdade territorial. A urbanização, quando conduzida por imperativos de acumulação, gestão e controle, torna-se um vetor ativo de dominação social e reorganização do espaço segundo interesses alheios ao uso e à dignidade da vida. Além de denunciar desigualdades como efeitos, busca-se compreender os mecanismos — materiais, simbólicos, e institucionais — que produzem desigualdade como função. São esses mecanismos que promovem a obsolescência induzida de territórios e populações, a modernização seletiva como estratégia de expulsão, o uso da técnica como linguagem da despolitização e a captura dos instrumentos de planejamento por racionalidades empresariais.
A fragmentação do território, a financeirização do espaço e a lógica da fluidez seletiva — que privilegia certos fluxos e bloqueia outros — são aspectos centrais da atual forma de dominação urbana. A análise desses dispositivos não os toma como falhas ou distorções de um modelo neutro, mas como expressões coerentes de um projeto de sociedade que desloca o planejamento do campo da práxis para o campo da gestão, e a política do campo do dissenso para o campo da técnica. Ao identificar tais engrenagens, abre-se espaço para o pensamento de resistência, que é inseparável da crítica. Mapear seu funcionamento torna-se um passo fundamental para restituir à ação coletiva sua potência de ruptura e reconfiguração.
É no território vivido, apropriado e disputado, que emergem as práticas capazes de romper com a lógica dominante da produção do espaço. Parte-se da constatação de que, mesmo em contextos marcados pela precarização, fragmentação e financeirização, persistem e se renovam formas de ação coletiva, experimentação política e criação de mundos. Longe de serem meras reações à dominação, essas práticas constituem epistemes insurgentes que propõem outras formas de planificação, outros sentidos de cidade e novas relações entre técnica, política e vida. O comum, portanto, não é tomado como substantivo dado, mas como constituição cotidiana e situada — resultado de vínculos socioterritoriais, pactos de solidariedade e modos de uso compartilhado.
Ao abordar experiências de reexistência, redes de cooperação, práticas cartográficas contra-hegemônicas e sistemas de informação orientados à justiça social, pretende-se iluminar processos que desafiam as formas estabelecidas de governar, planejar e conhecer o urbano. Trata-se de deslocar o foco do aparato institucional para as práticas territoriais concretas, nelas reconhecendo não somente resistência, mas potência criadora.
A centralidade do território como campo de luta e invenção política recoloca a cidade como espaço de elaboração coletiva do futuro — para além de uma promessa técnica ou gerencial: como horizonte construído no presente, a partir da ação dos sujeitos. Com essa perspectiva, reafirma-se a convicção de que o possível está sendo ensaiado nas margens — e que as margens, por sua vez, podem tornar-se o centro de uma nova razão política.
As Sessões de Trabalho foram concebidas como espaços de articulação entre iniciativas experimentais e estratégicas de planificação e a produção coletiva de informação pertinente e territorializada.
O objetivo é o de encontrar meios que permitam interrelacionar experiências práticas, redes colaborativas e a produção de informações sistematizadas, de modo que possam ser rapidamente apropriadas por agentes comprometidos com a promoção de estratégias e práticas emancipadoras concretas de organização territorial, estabelecidas sob bases endógenas.
Com a realização das sessões de trabalho, pretende-se constituir espaços para ampliar os debates a respeito da informação compreendida como dimensão estratégica da política territorial; ao mesmo tempo, apropriada como base, suporte técnico e registro descritivo do fenômeno territorial urbano. Em suma, a informação como forma ativa de intervenção: uma dimensão mediadora entre técnica e política, entre forma e conteúdo.
Visa-se, portanto, projetar ações que propõem e experimentam políticas concretas de produção de informação orientadas à efetividade da ação política.
Com a articulação entre informação e território, a constituição de sujeitos coletivos e do diálogo com categorias como saber e lugar, as sessões integram a arquitetura ativa do seminário à medida que elaboram conceitos, tecem elementos de análise, fortalecem vínculos e projetam ações para além do evento.
Desse modo, as sessões podem contribuir com o oferecimento de pré-requisitos iniciais para a formulação de estratégias informacionais territorializadas cujos desdobramentos poderão ser compartilhados desde agora com a comunidade científica e agentes sociais por intermédio deste Forum de Urbanologia.
Iniciativas de criação de sistemas de informação geográfica em favelas e comunidades urbanas
Considerando as limitações dos censos para o mapeamento das comunidades e favelas urbanas (antigo "aglomerado subnormal") e a relevância do conhecimento mais aprofundado da realidade social a partir da perspectiva dos moradores e organizações locais, essa sessão de trabalho discute novas métricas territoriais de proteção social voltada para famílias residentes em territórios precarizados de metrópoles brasileiras e propôs um novo tipo de censo aplicado a estes territórios.
Metodologia de mapeamentos alternativos de territórios urbanos – Iniciativas de mapeamentos de territórios periféricos no contexto da saúde
À luz das pesquisas sobre mapeamentos alternativos de territórios periféricos, a sessão de trabalho envolve estudos sobre as dinâmicas territoriais das favelas e as formas de reprodução de desigualdades espaciais, bem como os limites e potenciais das políticas de urbanização e iniciativas de análise da organização territorial dos serviços públicos de saúde.
Esta sessão será dedicada à constituição da Rede Territorialistas – Sujeito coletivo de pesquisa sobre inovação, futuro e planificação territorial, reunindo pesquisadoras e pesquisadores, técnicas e técnicos, movimentos sociais e instituições públicas engajadas na produção de alternativas territorializadas às formas hegemônicas de planejar e intervir em cidades e regiões. Mais do que espaço de diálogo, a Rede afirma-se como instância ativa de criação coletiva, na qual se elaboram metodologias críticas, compartilham-se experiências enraizadas e se propõem caminhos para a construção de um futuro comum — socialmente necessário e territorialmente situado.
Articulado a esse processo, ganha centralidade o SISAL – Sistema de Informação para o Planejamento Territorial Latino-Americano, concebido como instrumento de produção, sistematização e difusão de dados e cartografias sociais. O SISAL busca consolidar uma agenda de mapeamento dos territórios populares e comuns da América Latina, ampliando a visibilidade das múltiplas territorialidades, fortalecendo vínculos já existentes e criando novas formas de cooperação entre coletivos, pesquisadoras/es e instituições. A noção de popular e comum aqui adotada refere-se tanto aos territórios produzidos pelas práticas sociais cotidianas quanto aos espaços de uso coletivo, constituídos pela partilha e pela cooperação.
Durante o seminário, a sessão será dedicada à escuta das iniciativas em andamento, à sistematização das práticas existentes e à formulação de estratégias que ampliem a presença da Rede e do SISAL no debate público e nas práticas institucionais. A consolidação dessas frentes integra a proposta de uma urbanologia comprometida com a dimensão coletiva da planificação e com a invenção política enraizada na multiplicidade e diversidade dos usos do território.