O 4º Seminário sobre Planejamento Urbano e Regional, Arquitetura e Urbanismo e Urbanologia – S[PURABURBALOGIA] consolida um percurso iniciado em 2020, voltando-se, nesta edição, à sistematização de elementos que possam contribuir para a formulação de uma epistemologia própria da urbanologia, apreendida a partir da geografia crítica de Milton Santos. As quatro edições do seminário configuram um processo contínuo de investigação e articulação entre pesquisadores comprometidos com a leitura atenta dos processos de urbanização e com a construção de práticas teóricas e territoriais orientadas pela noção de ação política, tal como compreendida pela sociologia do presente de Ana Clara Torres Ribeiro.
Nesta edição, o seminário reafirma um projeto científico com pretensão de constituir um lugar público de pensamento e interlocução, no qual se entrelaçam produção acadêmica, política, técnica e reflexão coletiva sobre usos possíveis em meio às disputas do território, e pelo território.
As mesas redondas e sessões de trabalho estão organizadas segundo três eixos complementares — Epistemológico, Crítico e Propositivo —, que traduzem dimensões distintas, porém interdependentes, da urbanologia como campo emergente de conhecimento e ação.
Além de reunir exposições e debates, o seminário propõe-se a aprofundar a análise das racionalidades urbanas contemporâneas, questionando os limites do planejamento tecnocrático e os efeitos das novas formas de mercantilização e controle sobre o espaço urbano e regional. Ao mesmo tempo, pretende identificar e valorizar experiências e práticas insurgentes, nas quais se delineiam alternativas concretas às lógicas hegemônicas de produção do território.
O site cumpre, nesse contexto, papel essencial como instrumento de registro, difusão e convergência. Ele organiza as informações do evento, disponibiliza os materiais produzidos pela Comissão Organizadora e pelos grupos parceiros e abriga o Fórum de Urbanologia, espaço permanente de diálogo e colaboração. No fórum, participantes, pesquisadores e instituições podem compartilhar reflexões, documentos e proposições, fortalecendo o caráter processual e coletivo do seminário.
Em consonância com seu caráter acadêmico, o S[PURABURBALOGIA] afirma-se também como prática pública de pensamento: uma rede que combina crítica e imaginação, teoria e experiência, conhecimento e ação — na busca por compreender o urbano não apenas como objeto de estudo, mas como campo vivo de transformação e criação coletiva.
Por que falar em urbanologia agora?
O texto de Milton Santos The Peripheral Modern Urbanism (2001) é base direta para a formulação da urbanologia como campo crítico e propositivo. Nesse texto, Milton Santos propõe um “urbanismo cidadão” em contraposição ao “urbanismo das empresas”, um “planejamento cidadão”, apontando a necessidade de uma ultrapassagem de limitações disciplinares e que una técnica e política. A urbanologia, desse modo, fundamenta as bases de um projeto que requer “imaginação urbanológica”, capaz de articular sistemas de objetos e sistemas de ações — superando tanto as abordagens fragmentadas quanto os tecnicismos descompromissados com a realidade material: a urbanologia é resposta crítica ao urbanismo clássico, especialmente diante das contradições intensificadas pela globalização.
A urbanologia nasce da geografia crítica de Milton Santos; atua como ferramenta de ação política e teoria social; busca enfrentar a segregação urbana e os limites do planejamento tecnocrático; e ancora-se em pilares como: a nova economia política da cidade, o direito ao entorno, a imaginação urbanológica e a articulação entre teoria e prática.
A urbanologia vai para além de um novo campo temático — constitui-se como a afirmação de uma episteme em constituição, que recoloca o território, o uso e o conflito no centro do pensamento sobre a cidade. Como gesto de fundação crítica, ela propõe outro modo de conhecer, imaginar e intervir no urbano, ancorado na experiência vivida, na ação socialmente necessária e na inseparabilidade entre técnica e política.
Tal episteme da urbanologia confrontaria a racionalidade dominante na constituição do fenômeno urbano: a da gestão tecnocrática e financeirizada, que transforma a cidade em ativo, a vida em planilha e o planejamento em operador de consenso. Como propõe Ana Clara Torres Ribeiro, trata-se de reconhecer, no âmbito da sociologia do presente, o comportamento do poder dominante — e de instaurar, a partir desse diagnóstico, um campo teórico-prático voltado à reapropriação crítica do território e à ação política com centralidade no social.
Sob essa práxis, a urbanologia pode ser vista não apenas como crítica, mas como proposição. O projeto é que se configure como pensamento instaurador, que convoca à ação coletiva, ao vínculo político e ao compromisso com a justiça, dirigida ao cidadão comum — este entendido como instituição em pé de igualdade com o Estado. Articulada, a princípio, com o conceito de território usado e ao horizonte das ações socialmente necessárias, a aposta é que se consolide outra economia política possível — fundada no uso e na prática social, na copresença e no direito à existência de lugares confrontados com os projetos dominantes.
Este seminário deverá ser, assim, um espaço de enunciação e elaboração dessa episteme insurgente. Um gesto coletivo que não apenas denuncia as condições históricas das perversidades e dos constrangimentos do presente, mas afirma e institui, desde já, o possível.
Em suma, a urbanologia é: