4º S [ ( PUR + AU ) + URBANOLOGIA ]
2 a 5 de dezembro de 2025

Bases epistemológicas da urbanologia

Pensando o período pós-globalização: usos do território, informação, mundos possíveis

Eixo 1 – Crítica e planificação: a cidade como construção política do comum

A cidade é aqui proposta como campo privilegiado para a crítica radical do presente e, simultaneamente, como lugar de emergência do possível. Tal monta parte do entendimento de que a cidade não é apenas efeito da urbanização contemporânea; é também espaço onde se manifestam, de forma concentrada e visível, as contradições, os conflitos e as potências sociais que desafiam os modelos hegemônicos de organização do espaço e da vida. Por assim ser, não se trata de objeto passivo de estudo, mas de uma instância crítica que interroga a técnica, a política e o projeto.

A proposta convida à reinvenção das formas de compreender e intervir no urbano, recusando as abordagens que o reduzem a um problema de gestão, eficiência ou inovação. Em contraponto, busca-se recolocar em cena a cidade como campo de disputa simbólica e material, onde diferentes concepções de território, valor e uso se enfrentam. Ao abordar temas como a tensão entre técnica e política, o esvaziamento do planejamento pela racionalidade instrumental e a centralidade do trabalho vivo na produção dos espaços, destaca-se a urgência de reconstruir o projeto urbano a partir da práxis e da imaginação. O que está em jogo vai além de uma simplória crítica ao que existe: busca-se a abertura de horizontes capazes de reconfigurar os fundamentos da vida urbana — por meio de novos sentidos de habitar, de apropriar, de criar e de lutar coletivamente por territórios justos e vivos.

Eixo 2 – Dispositivos contemporâneos de dominação

O objetivo aqui é revelar e problematizar os dispositivos que, na contemporaneidade, operam a contenção da crítica, o esvaziamento da política e a reprodução da desigualdade territorial. A urbanização, quando conduzida por imperativos de acumulação, gestão e controle, torna-se um vetor ativo de dominação social e reorganização do espaço segundo interesses alheios ao uso e à dignidade da vida. Além de denunciar desigualdades como efeitos, busca-se compreender os mecanismos — materiais, simbólicos, e institucionais — que produzem desigualdade como função. São esses mecanismos que promovem a obsolescência induzida de territórios e populações, a modernização seletiva como estratégia de expulsão, o uso da técnica como linguagem da despolitização e a captura dos instrumentos de planejamento por racionalidades empresariais.

A fragmentação do território, a financeirização do espaço e a lógica da fluidez seletiva — que privilegia certos fluxos e bloqueia outros — são aspectos centrais da atual forma de dominação urbana. A análise desses dispositivos não os toma como falhas ou distorções de um modelo neutro, mas como expressões coerentes de um projeto de sociedade que desloca o planejamento do campo da práxis para o campo da gestão, e a política do campo do dissenso para o campo da técnica. Ao identificar tais engrenagens, abre-se espaço para o pensamento de resistência, que é inseparável da crítica. Mapear seu funcionamento torna-se um passo fundamental para restituir à ação coletiva sua potência de ruptura e reconfiguração.

Eixo 3 – Ações territorializantes e constituição do comum

É no território vivido, apropriado e disputado, que emergem as práticas capazes de romper com a lógica dominante da produção do espaço. Parte-se da constatação de que, mesmo em contextos marcados pela precarização, fragmentação e financeirização, persistem e se renovam formas de ação coletiva, experimentação política e criação de mundos. Longe de serem meras reações à dominação, essas práticas constituem epistemes insurgentes que propõem outras formas de planificação, outros sentidos de cidade e novas relações entre técnica, política e vida. O comum, portanto, não é tomado como substantivo dado, mas como constituição cotidiana e situada — resultado de vínculos socioterritoriais, pactos de solidariedade e modos de uso compartilhado.

Ao abordar experiências de reexistência, redes de cooperação, práticas cartográficas contra-hegemônicas e sistemas de informação orientados à justiça social, pretende-se iluminar processos que desafiam as formas estabelecidas de governar, planejar e conhecer o urbano. Trata-se de deslocar o foco do aparato institucional para as práticas territoriais concretas, nelas reconhecendo não somente resistência, mas potência criadora.

A centralidade do território como campo de luta e invenção política recoloca a cidade como espaço de elaboração coletiva do futuro — para além de uma promessa técnica ou gerencial: como horizonte construído no presente, a partir da ação dos sujeitos. Com essa perspectiva, reafirma-se a convicção de que o possível está sendo ensaiado nas margens — e que as margens, por sua vez, podem tornar-se o centro de uma nova razão política.