O avanço de modelos de governança inspirados no setor empresarial, enquanto dispositivo contemporâneo de dominação urbana, tem deslocado a condução das políticas para uma lógica de administração de ativos e fluxos, mediada por indicadores, metas e contratos de desempenho. Nessa configuração, a cidade deixa de ser entendida como construção coletiva e passa a ser tratada como objeto de gestão técnica, o que tende a restringir a participação social a instâncias formais e pouco influentes.
Planos estratégicos, plataformas digitais de monitoramento, parcerias público-privadas e consórcios interinstitucionais operam como filtros que definem prioridades e excluem demandas que não se alinham a critérios de competitividade ou retorno econômico. Tal tecnificação do processo decisório reduz a política urbana a operações gerenciais, invisibilizando conflitos, interesses divergentes e saberes não técnicos.
A fragmentação territorial intensifica-se quando recursos e investimentos circulam seletivamente, favorecendo zonas de alta rentabilidade e marginalizando territórios periféricos. Essa seletividade é econômica e sobretudo simbólica, pois redefine quais espaços e populações merecem atenção e quais permanecem fora do radar das políticas públicas.
O debate propõe examinar criticamente como a tecnocracia reconfigura a relação entre governantes e governados, e como experiências de gestão democrática, orçamento participativo, coprodução de políticas e redes colaborativas podem desafiar esse padrão. Ao recolocar o protagonismo social no centro da gestão urbana, almeja-se tensionar o monopólio decisório de especialistas e agentes de mercado, reafirmando a cidade como território de negociação política e justiça socioespacial.
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